Na Sertã, o imobilismo foi desfeito em 1916 devido à ação de um homem, Adrião Morais David. Este escrivão de Direito alimentava há muito o sonho de ver criada uma corporação de bombeiros mas, como não tinha os meios financeiros, nem tampouco o material necessário, foi adiando esse objetivo. Num certo dia do ano de 1916, em conversa com o cunhado, Alberto Eugénio Carvalho Leitão, presidente dos Bombeiros Voluntários da Ajuda e natural do concelho da Sertã, tomou conhecimento de que esta corporação ia desfazer-se do material antigo que possuía devido ao processo de modernização em curso. O material antigo estava, porém, “em boas condições”, assegurava Alberto Leitão, e os Bombeiros da Ajuda estavam a negociá-lo “em boas condições de preço” Adrião Morais David viu ali a oportunidade para colocar em marcha a fundação de um corpo de bombeiros na Sertã.
Lançou, desde logo, uma campanha pública de recolha de fundos para a aquisição do material, encetando, em paralelo, contactos com o abastado proprietário João Pinto de Albuquerque para formarem uma comissão administrativa. O convite foi imediatamente aceite e a eles juntou-se o influente advogado Bernardo Ferreira de Matos, por sugestão de João Pinto de Albuquerque. As primeiras reuniões aconteceram na residência de Bernardo de Matos e logo se discutiu a elaboração de um projeto de estatutos, cuja redação ficou a cargo de Carlos Augusto Ascensão e de Celestino Pires Mendes. A subscrição pública para a aquisição de material registava resultados interessantes, pois, até agosto de 1916 já se arrecadara 316$50 escudos. Em face destes números, a comissão decidiu que era chegada a hora de convocar uma reunião para apresentar o projeto à população e perceber se as bases em que laborava eram sólidas.
A reunião foi convocada para o dia 26 de agosto de 1916 e decorreu no edifício do Teatro Tasso10. A adesão foi elevada e, pelas 21 horas, Bernardo Ferreira de Matos declarava aberta a sessão, informando sobre a ordem de trabalhos e anunciando que o grande objetivo era a fundação de uma associação de bombeiros. Seguidamente, Fernando Matoso Corte Real, juiz da Comarca da Sertã, foi convidado a presidir à reunião, sendo assessorado por Carlos Ascensão e Celestino Mendes. Adrião Morais David pormenorizou então o trabalho desenvolvido e afirmou que os Bombeiros Voluntários da Ajuda estavam na disposição de negociar a venda do material antigo e dar todo o apoio na criação do corpo ativo dos futuros bombeiros sertaginenses. Para que tal sucedesse era necessário dar o conveniente enquadramento legal à futura Associação dos Bombeiros Voluntários da Sertã.
O juiz Fernando Corte Real convidou os presentes a inscreverem-se como sócios na nova associação e apresentou o projeto de estatutos elaborado pela comissão. Após curta discussão e inserção de ligeiras alterações ao documento, foram aprovados os estatutos pela assembleia. Tornava-se agora necessário eleger uma nova comissão que prosseguisse o trabalho desenvolvido. Mas a maioria dos presentes insistiu que os elementos atuais deveriam continuar em funções. Finda a sessão, Adrião Morais David, João Pinto de Albuquerque e Bernardo Ferreira de Matos dirigiram-se a casa deste último e aí reuniram pela primeira vez a recém-criada Comissão Administrativa da Associação dos Bombeiros Voluntários da Sertã. Discutiram os lugares e decidiram que Bernardo Matos ficaria na presidência, João Albuquerque no cargo de tesoureiro e Adrião David assumiria as funções de secretário. Optaram por continuar com a subscrição para a compra do material, promovendo, em simultâneo, uma campanha para angariação de sócios e entabulando negociações para sinalizar uma casa que pudesse servir de sede à instituição.
(Texto retirado do Livro Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Sertã, pág.11 e 12)